De 1994 a 2020: o que aprender sobre perspectiva

Foto capa da postagem sobre perspectiva no site de Gabriela Araujo. Desenvolvimento pessoal

1994 é considerado um ano emblemático de muitos acontecimentos. Mas se você perguntar à minha mãe porque o ano de 1994 foi importante, ela responderá que foi porque eu nasci. (Ao menos é o que espero). Sim, o ano foi importante por várias razões, porém meu nascimento foi relevante só para ela. Isso é sobre perspectiva.

Se você considerar o mundo em 2020, é fácil traduzi-lo em uma única palavra: caos. Porém, quando pergunta para um empreendedor que, após muito relutar, teve sucesso com seu negócio nesse ano: bonança. Isso é sobre perspectiva.

Somos do mundo e somos o mundo

Existe o mundo em que vivemos e o mundo que cada um de nós forma. Ainda que estejamos inseridos em um cenário coletivo, que nos afeta de formas similares, existem componentes únicos em nossas vidas que garantem uma particularidade no reagir.

Por isso, nos sentimos frustrados quando vivenciamos uma grande perda e o mundo continua a girar como se nada tivesse acontecido. Se o que sou está desmoronando, como é possível que ao redor de mim tudo permaneça no lugar?

É ao mesmo tempo belo e frustrante. Imagine se todos nós sentíssemos todas as dores de todos os indivíduos todas as vezes? Ainda assim, sei que você entende bem quando digo que, ao viver um luto profundo, sentimos como se a risada do outro fosse um inferno particular.

Entes queridos se vão no momento em que outras casas estouram o champanhe comemorando o novo ano. Mães dão à luz à filhos ao mesmo passo em que filhos choram a morte dos pais. A vida é simultânea.

Simultaneamente, benção e maldição

Em 1994, Ayrton Senna, um ídolo nacional, morreu num acidente na Itália. Dois meses depois, o Brasil foi campeão numa Copa do Mundo depois de 24 anos. Foi também em 1994 que surgiu o Plano Real, um respiro de esperança para quem não sabia mais como viver à mercê de uma hiperinflação.

Em 2020, alastrou-se no Brasil uma pandemia nunca antes vista pela maioria da população. Milhares de pessoas perderam suas vidas, outras milhares perderam entes queridos sem ter a chance de enterrá-los, negócios faliram, o desemprego decolou e famílias perderam suas casas.

No mesmo ano, graças ao isolamento, pais começaram a passar um tempo significativo com os filhos pela primeira vez. Pessoas sentiram uma melhoria no bem-estar por estarem longe de um ambiente que antes não percebiam fazê-las mal.

Quando falamos sobre perspectiva, não é para tentar mascarar tragédias com eufemismos ou relativizar problemas. O objetivo é relembrar que a coletividade é feita por individualidades e nenhuma delas pode ser negligenciada.

A perspectiva da diferença

Mais de uma vez, ouvi de amigos que o ano de 2020 foi um período individualmente enriquecedor. Em seguida, admitiram vergonha por falar isso em voz alta, porque não queriam judiar da dor das pessoas. Isso é compreensível e fala sobre ser humano.

Apenas lembremos que uma felicidade individual não apaga uma dor coletiva. Assim como uma felicidade coletiva não apaga uma dor individual. Todas as vezes que celebramos uma vitória, temos que ter consciência que essa não é uma realidade absoluta — contudo, isso não pode nos impedir de viver essas vitórias.

Irena Sendler era uma assistente social polonesa durante a Segunda Guerra Mundial e ela foi responsável por salvar a vida de 2500 crianças judias. Cada uma das pessoas que Irena salvou tem uma história feliz para contar e isso não apaga o fato de que outros 6 milhões de judeus morreram no Holocausto. Ainda assim, essas 2500 vidas que foram salvas precisam ser celebradas.

Estamos vivendo tempos de um luto cotidiano. Quando não é a perda de alguém próximo de nós, é a perda de alguém próximo de quem é próximo de nós. Eu, particularmente, vivi ambos. Esse ano, perdi a minha avó materna. Consolei uma amiga que perdeu o pai, outra amiga que perdeu o avô. Perdi o meu emprego.

Celebrei a publicação de meu primeiro livro. Celebrei o dia das mães com a minha mãe e o dia dos pais com o meu pai. Preocupei-me quando meu irmão contraiu Covid. Celebrei que minha prima teve alta de sua oncologista.

A vida não é só sobre vitórias. Do mesmo modo, ela não é só sobre perdas. A vida é sobreviver em ambas as ocasiões. E sobre adaptar a perspectiva para não deixar que o tempo se vá sem que percebamos.

Imagem em destaque de Patrick Hofrichter — Unsplash.

1 COMMENT
  • Esperto quem aprendeu sobre vida com Zeca Pagodinho | Gabriela Araujo
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    […] positivos para atrair resultados positivos. Quero dizer, nem tudo é questão de abraçar uma perspectiva “gratiluz” — basta olharmos para o mundo ao redor para entender que vivemos uma realidade […]

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