A geração que se apaixonou pelo “papel de trouxa”

Foto capa do artigo A geração que se apaixonou pelo papel de trouxa no site Gabriela Araujo. Comportamento

Num mundo cada vez mais inóspito com a nossa sensibilidade, nos agarramos ao direito de fazer papel de trouxa como uma forma de defender nossa necessidade de sentir.

Procuramos exercer poder sobre uma expressão que nos fere antes que ela possa nos ferir e em resultado tornamos o sofrimento a nossa única companhia.

Assim aceitando a dor como nosso destino, nos fingimos apaixonados por ela.

: trouxa; adj.

Termo pejorativo que se refere a uma pessoa que é sempre enganada. Os sinônimos são termos como mané, otário e bobo. É comumente entendido como alguém de quem é fácil tirar vantagem e desta maneira virou chacota popular.

Inegavelmente sempre tive curiosidade em entender os significados por trás de algumas palavras e mais ainda, nosso imediatismo em aceitá-los como verdades.

Pense comigo: “pessoa que é sempre enganada”; o trouxa seria o sujeito ou o objeto da ação? Objeto. Assim sendo, se a ação é enganar, e entendemos o verbo como algo negativo, por que razão cobrimos o objeto com o manto da vergonha?

Se a ação é do sujeito, assim também deveria ser o demérito.

: fazendo papel de trouxa

Desse modo, fazer papel de trouxa seria basicamente ter atitudes ditas “trouxas” com total conhecimento sobre isso e ainda mais, escolhendo o fazer. Mais vezes do que não, está relacionado a um relacionamento amoroso.

Na modernidade, fazer papel de trouxa pode ser entendido como os exemplos de indivíduos abaixo:

– ao invés de sair para qualquer ato de socialização, escolhe ficar em casa no sábado à noite e chorar por um amor não-correspondido ou um ato errôneo do parceiro;

– se agarra ao ato de assistir séries de teor romântico ou trágico que acentuam ainda mais o seu quadro “de bad”;

– em um momento já doloroso, opta por ouvir uma playlist “de bad” já previamente feita para ocasiões como essa;

– despeja no Twitter suas desilusões em busca de desabafo e compreensão por parte de outros que passam pela mesma situação e retwitam em concordância;

– passa da conta na bebida e armado por aquele tipo de coragem que somente o álcool proporciona, sente que é uma boa ideia mandar mensagem para a ex;

– apesar de milhares de negativas anteriores, segue pedindo uma segunda chance para o ex;

– sempre retoma o relacionamento com a ex, consistindo em muitas indas e vindas de uma novela sem novos capítulos;

– permanece em um relacionamento do qual tem consciência ser prejudicial a si mesmo;

– se desilude inúmeras vezes com a mesma pessoa e ainda assim continua perdidamente apaixonada;

– é alvo de uma traição amorosa e ainda assim segue amando a parceira;

– escreve poemas ou compõe canções a respeito das dores do amor e encontra abrigo compartilhando seus feitos para um público que o compreende;

– segue se fazendo de back-up emocional para alguém que não doa absolutamente nada, apenas toma;

– acredita por diversas vezes que alguém mudou o comportamento para se desiludir de novo e de novo;

– cria expectativas e alimenta suas próprias ilusões acerca de um cenário que no fundo sabe ser irreal.

: sejamos todos trouxas

Certamente qualquer tipo de situação que nos prejudica precisa ser combatida, principalmente quando somos nós que nos colocamos ou nos permitimos permanecer em um cenário que nos deixa desanimados e infelizes.

Deste modo, é de extrema importância discutirmos a relação por vezes nociva que temos com o conceito de relacionamento amoroso, o que ele inclui e principalmente o que não inclui.

É também de extrema importância que sejamos honestos sobre nossos sentimentos e admitamos para nós mesmos quando não estamos bem e quando precisamos de ajuda para melhorar.

Contudo, precisamos fazer isso do jeito certo. Não é assumindo um falso orgulho da dor que fazemos dela menor ou inexistente e não é nos auto intitulando “trouxas” que iremos tornar positiva uma situação que nos adoece.

Dessa maneira existe um senso de comunidade na dor, estreitamos nossos laços de uma maneira que não é possível em momento de festa. É como se na euforia somente alcançássemos a superficialidade do ser, que só se revela verdadeiramente nas profundezas do caos.

Ademais entendo que buscamos sentido por trás daquilo que nos aflige e que por vezes nos voltamos ao humor como uma forma de combatê-lo: o famoso “estou fazendo origami com meu papel de trouxa”.

Existe força na habilidade de admitir para si e para os outros que tem tido uma atitude que não condiz com aquilo que quer para si e nos apoiar em outras pessoas que chegaram a mesma conclusão pode ser benéfico. Porém, o aprendizado precisa vir da análise e consciência.

Assim, além da criatividade que extraímos de nossa dor, da amizade que sedimentamos com nossos iguais e das piadas que formulamos como mecanismo de defesa, não esqueçamos de olhar para dentro, identificar o que de fato queremos para nós e adaptar nossa essência de acordo.

: o verdadeiro trouxa

Ao fim, aquele sujeito que chamam de trouxa é simplesmente alguém que:

– Arrisca;

– É honesto a respeito de seus sentimentos;

– Dá tudo de si;

– Dá a alguém o presente da confiança.

E nem uma dessas características precisa ser violentamente mudada por causa da atitude de alguém externo ao sujeito. É claro que precisamos nos proteger, mas que não caiamos na falácia de que precisamos endurecer o coração por causa das más atitudes no mundo.

Não é negando nossa sensibilidade que deixaremos de nos machucar, apenas deixaremos de ser nós mesmos por causa de um comportamento que nada tem a ver conosco. E que desperdício seria abrir mão da nossa visão para enxergar com os olhos do outro. Nossa visão é única e precisa ser preservada.

Cada interação é independente da que veio anteriormente e da que virá posteriormente, mas algo que sempre é fixa é nossa participação. Precisamos saber observar quando alguém está nos fazendo mal para então nos afastar, mas não precisamos anular a nós mesmos no processo. Mudemos o que nos machuca, não quem somos.

Afinal trouxa só pode ser duas coisas: aquele amontoado de roupas que separamos para lavar ou a pessoa incapaz de fazer magia no universo de Harry Potter.

De resto, deixemo-nos ser humanos.

Originalmente publicado no Medium em abril de 2020.

1 COMMENT
  • Too good at goodbyes e relacionamentos modernos | Gabriela Araujo
    Responder

    […] Isso acaba por desvalorizar nossas interações humanas e alimentar um senso de orgulho por se tornar cada vez mais insensível. Entende-se aqui a insensibilidade não como um julgamento, mas a partir da real “ausência de sentir”. […]

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