Por que pensamos que ser é igual a trabalho?

Foto capa da postagem sobre ser igual a trabalho no site Gabriela Araujo. Desenvolvimento pessoal

“O que você quer ser quando crescer?”

Eu não lhe conheço, caro leitor, nem muito menos sei sua história de vida, mas sei que existe ao menos 98% de chance de você ter ouvido essa pergunta quando jovem.

Sei que eu já ouvi bastante e, quando criança, era uma pergunta que me deixava por dias a fio pensando na resposta apropriada. Ao ouvir as respostas dos outros, me deparei com palavras como “advogada”, “professora” e “médica”. Então entendi cedo que o que me tornaria era o trabalho que faria.

Em minha mente juvenil, ficava muito claro que para eu ser qualquer coisa na vida, antes precisava crescer, uma vez que ser estava atrelado à profissão que exerceria e para isso teria de ser adulta.

Fiquei obcecada e mal podia esperar para crescer e explorar todo esse potencial que me parecia tão excitante. Vivia na expectativa de deixar meus anos de infância para trás porque eles não pareciam ter valor, afinal se não tinha uma profissão eu ainda não era nada.

Já se deu conta de que a dificuldade que temos de dissociar o que fazemos de quem somos se inicia nessa ideia de ser = trabalho que nos ensinam ainda na infância?

A jornada em busca do “ser”

Esse ensinamento vai se fortalecendo na medida em que o tempo passa e vamos compreendendo o que é necessário para viver em sociedade. O estudo tradicional é um bom exemplo disso.

O nosso sistema de ensino geralmente não trabalha conhecimento como uma ferramenta que nos torna seres melhores e mais capazes. Ao invés, o propósito de estudar culmina no resultado de passar na faculdade e conseguir um bom emprego.

Ou seja, o aprendizado se torna nada mais do que um meio para um fim. Isso somente reforça que precisamos nos empenhar para no fim conseguir aquele emprego que desencadeará a nossa essência. O emprego que nos tornará o que ainda não somos.

No período do vestibular, chega a pressão por fazer a escolha certa e a hostilidade por qualquer área que não nos leve ao “tradicional caminho do sucesso”.

E quem não quer ou não pode iniciar um curso superior então? A sociedade nem ao menos considera que são cidadãos contribuintes, afinal sem o emprego que eles ditam “bom” que só é alcançado através da universidade, eles não “são” nada.

Aqueles que “não são”

Quem não ocupa um cargo de prestígio pelo olho social não chegou a ser humano, ao invés é alvo de piadas cruéis e exemplos do que “não ser”. Quem nunca ouviu no colégio uma insinuação provocante sobre “estudar para não terminar trabalhando no McDonalds”?

Do mesmo modo, aqueles que ousaram optar por uma versão não-tradicional de sucesso vivem tendo suas escolhas questionadas e suas vitórias subestimadas. Você que escolheu a escrita, a música ou o desenho já deve ter sido questionado sobre “quando vai largar esse hobby e arranjar um emprego de verdade?” e “tá bom, mas o que faz como trabalho? Não pode ser só isso, né?”

Há também quem escolha dedicar a vida ao estudo e descoberta como uma profissão. Arqueologistas, geólogos, astrólogos, museólogos, oceanógrafos são alguns que têm seus trabalhos incompreendidos e que “vão acabar como professores porque como uma área que ninguém nem conhece vai dar dinheiro?”

Assim também acontece com aqueles que encontraram sua felicidade em posições consideradas “inferiores” porque não têm a ver com liderança, gestão ou salário alto. Exemplos são quem trabalha em salões de beleza, academias e oficinas mecânicas.

Por último, há quem viva um estilo de vida completamente alternativo àquele que se entende como o “padrão”. Nômades digitais, por exemplo. Aqui não existe só um estigma ao que se faz como trabalho, eles são lidos como aqueles que não trabalham no geral e ao invés só vivem viajando por aí. É o cúmulo para uma sociedade que não reconhece o valor da autenticidade.

Ser não requer validação

Assim entende-se que para a sociedade tradicional, o nosso “ser” só é pertinente quando validado pelo coletivo. Qualquer um que ouse “ser” individualmente está destinado à viver à margem do mundo ideal e não é considerado na tomada de decisões para o futuro do grupo.

Pelo medo de acabarem à margem, muitos de nós vivem na busca incessante pelo trabalho dos sonhos dos outros, não dos nossos. Muitos acabam frustrados por não conseguir alcançar a posição de destaque que disseram que era necessária e sentem que não são nada na vida.

Confesso que eu, mesmo agora escrevendo esse texto e ciente desse processo, vivo flertando com a ideia de que não sou relevante porque não estou onde gostaria de estar profissionalmente. É muito difícil se desvencilhar de um ideal que cresceu com você, mas é possível.

Frustrações são inerentes ao ser humano, mas o problema é quando elas passam a ditar a forma como nos enxergamos. Não teremos tudo o que queremos na vida e isso é um fato, mas às vezes uma estrada bloqueada faz com que mudemos a rota e descubramos um caminho que faz mais sentido para nós.

O que não pode acontecer é achar que cada desafio, atraso ou redirecionamento diz tudo sobre o que não somos.

Quando atribuímos o que somos ao que fazemos para ganhar dinheiro, perdemos a noção do limite de onde o trabalho termina e nossa essência começa.

Então não fique tão obcecado com a resposta certa à pergunta “o que você quer ser quando crescer”.

Somente seja e vai perceber que, uma hora ou outra, isso te dará todas as respostas que importam.

Foto em destaque retirada do site Unsplash de acordo com os direitos autorais. Autoria de Vladimir Fedotov.

1 COMMENT
  • 7 dicas para facilitar a migração para home office - Gabriela Araujo
    Responder

    […] esse período serviu para muitas empresas olharem esse estilo de trabalho como alternativa interessante e há rumores de que muitas posições o adotarão de forma […]

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