O chamego que nos falta

Foto capa do artigo Chamego que nos falta no site Gabriela Araujo. Comportamento

É curioso que quando adultos somos negados o chamego que recebe uma criança.

A vida real é que personifica os monstros que viviam debaixo de nossas camas e nos fazem desejar aqueles tempos em que eles eram somente ameaças que nunca se concretizavam.

Quando crescemos é que percebemos a cobrança vinda de todas as direções para parecer imbatível, não importa o que esteja acontecendo debaixo da superfície.

Cubra essa alma com qualquer farrapo de força que encontrar.

É só nessa época que entendemos que vamos passar a vida buscando pelo significado de tudo ao nosso redor e que talvez nunca descubramos.

Quando nos tornamos adultos notamos que nossas necessidades nem sempre andarão junto às nossas vontades, e que ambas nem sempre andarão junto às nossas possibilidades.

É aí que passamos a assumir nossas responsabilidades, e às vezes as dos outros também, quando o que mais queremos é jogar tudo para o alto e deixar que terceiros lidem com as consequências.

Querer chamego, mas não saber como, para quem ou se podemos pedir. É constantemente ceder espaço de fala aos que mais necessitam ouvir.

O ser adulto é:

Ser adulto é um tal de fazer muito do que não se quer e muito pouco do que se precisa.

É quando tomamos para nós mais do que de fato podemos suportar e fazemos o possível para dar conta de tudo sem sucumbir ao desejo de desistir. Desistir é, quase sempre, bem mais simples do que persistir.

Ser adulto é, sobretudo, nos surpreender a cada dia com a extensão de nossa garra.

É um tal de conversar bastante com si mesmo ao invés de expor aos outros o que precisamos dizer a eles.

É de vez em sempre se anular em nome do medo e da rejeição, para em seguida ter que prestar contas com a própria solidão.

Passar boa parte das noites em claro procurando por soluções no teto mal iluminado de nossos quartos e só encontrar mais problemas.

Ser adulto é precisar de muito chamego para alimentar nossa vontade de viver, mas essa informação parece ter se perdido no manual de necessidades básicas porque é algo que recebemos em uma escala de pouco a nada.

O ser adulto faz:

É por muitas vezes disfarçar nossa vulnerabilidade com uma ilusão bem elaborada. É segurar o choro até que estejamos longe de olhares curiosos e somente com a nossa consciência de testemunha.

Nunca saber ao certo o que fazer e fazer algo ainda assim, torcendo por resultados positivos.

Caminhar até quando os pés sangram, a boca seca e o corpo adoece, porque não nos dão alternativa.

O mundo não é gentil com os adultos e os adultos não são gentis com o mundo, feito por eles para eles.

O que nós estamos fazendo com nós mesmos?

Texto publicado originalmente no Medium em abril de 2020.

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