Temos urgência em ser urgentes

Foto capa da postagem sobre urgência em ser urgente no site Gabriela Araujo. Comportamento

Nossa obsessão por ser urgentes é resultado do temor pelo esquecimento.

Naqueles momentos em que manda uma mensagem para a pessoa e se encontra inconformado com a demora na resposta. Por que ela não respondeu?, eu posso ver que ela está online.

Então conclui que ela não se importa com você, que está lhe ignorando, que tem coisas mais interessantes para fazer com o seu tempo do que falar contigo ou então deve estar conversando com alguém de quem ela gosta mais.

Por vezes era o simples fato da pessoa ter deixado a janela do Whatsapp Web aberta mesmo. Ou quem sabe ela estava de fato ocupada resolvendo um assunto sério ou ouvindo um áudio longo.

Mas explicações lógicas não cabem no nosso mundo que se inquieta com qualquer tipo de atraso na reciprocidade da atenção.

O apreço pela atenção

Necessitamos nos sentir únicos e urgentes para o outro, precisamos de provas que atestam nossa exclusividade na lista de contatos. Queremos sentir que somos primordiais na vida de outrem, queremos garantir que somos a primeira lembrança e o primeiro nome no qual aquela pessoa pensou.

Vivemos numa batalha por atenção porque a ideia de cair em esquecimento nos apavora.

Se você é um Millennial brasileiro, ou seja, nasceu entre os anos 80 e 2000, talvez se lembre do nosso querido Orkut, a rede social exclusivamente brazuca que nos abraçou antes do moderno Livro das Faces.

Pois bem, você deve se recordar de que no Orkut existia uma ferramenta engraçada chamada “depoimento”, um texto que deixávamos no perfil de nossos amigos geralmente os elogiando — era bastante comum quando alguém fazia aniversário.

Era sem dúvidas um grande ode à enorme consideração que tínhamos por aquela pessoa, quanto mais longo o texto melhor. Ou será que não?

Competitividade e exclusividade

Puxe um pouco mais na memória e vai se lembrar de que existia uma “disputa” pelo topo na sessão de depoimentos.

Os amigos mais próximos viviam enchendo a caixa de depoimentos escrevendo algo como “o topo é meu”, que basicamente representava que o texto mais recente seria o que apareceria primeiro para todos verem.

O que concluímos a respeito disso? Nunca foi sobre a pessoa, era sobre nossa necessidade de satisfazer o nosso ego através de uma competitividade boba que desde crianças nos ensinam ser saudável.

E é com isso que alimentamos os nossos filhos para que alimentem os filhos deles e assim por diante. Travamos uma batalha com outras pessoas porque é dessa forma que nos formamos e nos mantemos enquanto sociedade, sempre desejando ser maior ou melhor do que o outro.

Neste caso, desejando ser mais urgente do que o outro.

A ferramenta “Melhores Amigos” do Instagram é um claro exemplo disso. Fazemos uma lista especial com as pessoas mais próximas de nós e produzimos um conteúdo exclusivo que só estará acessível para quem estiver nessa lista.

A ideia a princípio pode parecer bacana porque sabemos que nem todas as pessoas que temos em nossas redes sociais são de fato quem gostaríamos de ter, por muitas vezes é um simples caso de educação ou obrigação.

Quem nunca quis excluir aquele tio inconveniente e não pode para não criar guerra em casa?

Contudo, como tantas ferramentas quando caem nas mãos do ser humano, o foco é frequentemente desvirtuado. No caso de celebridades ou influenciadores, por exemplo, iniciou-se “a disputa” por estar na lista de melhores amigos de fulano, afinal isso lhe confere um selo de Humano Essencial na vida de determinada estrela.

Dependência de validação externa

É como sentir que se Joaquim não me nota, então eu sou invisível. Se Pietra não me respondeu, então eu não existo. Fernanda não me colocou na lista exclusiva, então não sou nada para ela. Se Felipe não me convidou, então se esqueceu de mim.

Não me entenda mal, às vezes alguém está te ignorando de propósito e por mais que doa, isso é um fato. O que quero ressaltar é que nosso valor não é reafirmado através do olhar ou opinião do outro.

Ainda que não sejamos notados por quem queremos, continuamos respirando, estudando, trabalhando, criando e sendo. Continuamos a viver e nossa vivência dispensa qualquer validação externa.

Deveríamos nos concentrar menos em fazer parte da memória de muitos e mais em deixar um legado legítimo para aqueles poucos que estão perto de nós.

A melhor forma de criar uma existência inesquecível é atribuindo valor àqueles que nos amam e que continuarão existindo quando nossa voz não mais for ouvida.

Não precisamos ser urgentes, precisamos ser presentes.

1 COMMENT
  • Por que pensamos que ser é igual a trabalho? | Gabriela Araujo
    Responder

    […] entende-se que para a sociedade tradicional, o nosso “ser” só é pertinente quando validado pelo coletivo. Qualquer um que ouse “ser” individualmente está destinado à viver à margem do […]

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